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Vacina para aids volta a ser testada no Estado

Depois de três anos de paralisação e de muita burocracia, os testes com a vacina terapêutica contra a aids, coordenados pelo médico e pesquisador pernambucano Luiz Cláudio Arraes, vão ser retomados no próximo mês. A partir do dia 20, começa o recrutamento das pessoas que serão submetidas à vacinação na segunda etapa da pesquisa, que deve durar até dois anos. O grupo vai contar com 35 portadores do HIV que não estejam tomando medicamentos e apresentem carga viral acima de um padrão estabelecido.

A retomada do projeto deve-se à aprovação de aproximadamente R$ 3 milhões de um edital da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e Ministério da Saúde. As pessoas interessadas em participar dos testes com a vacina devem ligar para o pesquisador de campo Mozart Mendes por meio do telefone 99892868.

Também podem entrar em contato com Aletéia Soares pelo telefone 21012564. Os pacientes que participaram da primeira etapa da pesquisa não vão se submeter a essa nova vacinação. Luiz Cláudio Arraes acredita que, até junho, o grupo deve começar a receber a vacina.

Nessa segunda etapa, a dose é mais forte e o monitoramento bem mais rigoroso. Os estudos terão a colaboração de equipes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e apoio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e vão contar com um time de 24 pesquisadores.

Na primeira fase do estudo, desenvolvida por pesquisadores pernambucanos e franceses, os resultados foram bastante animadores. Artigo publicado na revista científica britânica Nature Medicine, uma das publicações mais importantes do mundo, assinado por Arraes e outros três pesquisadores, Jean Marie Andrieu, Wei Lu e Wylla Tatiana Ferreira, revela que, em alguns casos, a vacina conseguiu reduzir em até 80% a carga viral dos portadores do HIV.

Os testes foram iniciados em 2004, no Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika-UFPE). A vacina utiliza o HIV-1 isolado do próprio paciente. O vírus é associado a células que permitem ao sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo, reconhecê-lo e combatê-lo rapidamente.

Os experimentos foram feitos com 18 pacientes HIV-positivos, sendo 16 mulheres, entre 18 e 36 anos, e dois homens, um de 27 e outro de 41, todos de Pernambuco. Em oito deles, em quase dois anos, o vírus não foi mais detectado. A vacina ajuda o sistema imune a se organizar e dirigir suas baterias contra o alvo. O vírus, desativado, é associado a células que permitem o reconhecimento e o combate pelas defesas do organismo.

Um dado importante, ressalta Arraes, é que, na verificação de toxicidade, a vacina não criou nenhuma resistência viral. O médico explica que a pesquisa será realizada no Laboratório de Virologia e Terapia Experimental do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães (CPqAM), unidade da Fundação Oswaldo Cruz, no Recife. “O laboratório está todo equipado.”

Ao contrário da primeira etapa, agora não há participação de pesquisadores franceses. Luiz Cláudio Arraes assegura que não será necessário comprar novos equipamentos. O projeto enfrentou vários problemas e atrasos em virtude de os aparelhos terem ficado presos na alfândega. “Agora, todos os materiais e reagentes serão comprados no Brasil para evitar problemas com a alfândega”, declara o pesquisador.

De acordo com Arraes, a estimativa para o produto chegar ao mercado e ser comercializado é de 15 anos, no mínimo. A terceira etapa do projeto, ainda sem data para começar, será bem mais ampla e deve utilizar um grupo de mil soropositivos.

Matéria publicada no Jornal do Commercio – PE em 14/02/2008